segunda-feira, 8 de junho de 2009

Texto sobre agentes comunitárias de saúde

No ano passado fiz um curso mto bacana sobre Jornalismo e Políticas Públicas e uma condição para o término do curso era a entrega de uma matéria sobre qualquer temática que envolvesse as políticas públicas nosso grupo optou por descrever o papel das agentes comunitárias de saúde, segue a matéria: Saúde de porta em porta

A expectativa de vida no Brasil que era de pouco mais de 54 anos em 1960, chegou a 72,57 anos em 2007, segundo dados do IBGE. Dentre os motivos para esse aumento estão os avanços da medicina, estratégias de vacinação em larga escala, melhorias no acesso aos serviços básicos de saúde pública e implementação de programas voltados para prevenção de doenças como o Programa de Saúde da Família e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde.
As origens das PACS (Programas de agentes comunitárias de saúde)
A primeira experiência com agentes comunitários de saúde, ACS, de forma estruturada no Brasil, ocorreu no Ceará em 1987, com o objetivo de criar oportunidades de emprego para as mulheres nas regiões de seca e contribuir para redução da mortalidade infantil. A experiência bem sucedida foi adotada nacionalmente pelo Ministério da Saúde em 1991, com a criação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde, o PACS, hoje parte do Programa Saúde da Família criado em 1994.
Somente no município de São Paulo são quase 6 mil agentes, cada um atende em média 200 famílias, são quase 1 milhão e 200 mil famílias atendidas, segundo números da Secretaria Municipal de Saúde. Os agentes são selecionados entre moradores da própria comunidade e como membros dessas comunidades, conhecem muito bem seus problemas, dificuldades e necessidades. Eles fazem parte de uma equipe que conta ainda com um médico, um enfermeiro e um a dois auxiliares de enfermagem. Funcionam como uma ponte, um elo, entre a comunidade e o sistema de saúde, pois por morar na comunidade entendem melhor seus códigos e valores e conseguem dialogar diretamente com os usuários do serviço.
Os agentes orientam os moradores quanto à saúde, higiene, nutrição, cuidados com crianças e gestantes, medidas de prevenção à dengue, estimulam a participação da comunidade nas políticas públicas de saúde, monitoram situações de risco e também registram casos de doenças, óbitos e nascimentos. As anotações de um agente de saúde fornecem para a equipe do serviço de saúde uma visão mais abrangente, e mais próxima da realidade sócio-cultural da comunidade. Através das visitas mensais às casas das famílias atendidas, o agente expande suas relações, e muitas vezes o seu trabalho vai além do usual e ele precisa reinventar a sua função e assumir o papel do psicólogo ou do antropólogo. Os moradores se sentem mais à vontade para mostrar os seus problemas a alguém da própria comunidade, pois a barreira sócio-cultural é derrubada, facilitando a comunicação e a tradução das suas dificuldades. Isso é reforçado pelos fortes laços de amizade e a relação de confiança que se desenvolve ao longo do tempo, lembrando o tipo de relação que existia no tempo do médico da família.
Os obstáculos
A rotina dos agentes comunitários de saúde nem sempre é fácil, diariamente enfrentam diversos desafios. Em uma manhã de trabalho, enquanto se preparavam para as visitas, conversamos com alguns agentes comunitários da Unidade Básica de Saúde de Humaitá na região de Bela Vista na capital de São Paulo. Os agentes apontaram diversas dificuldades, entre elas, a falta de aceitação do programa por parte da comunidade atendida. Isso se deve ao hábito da comunidade de procurar o atendimento médico somente quando a doença se instala, estranhando medidas de prevenção propostas pelos agentes. Para a agente Rita Brandão esse é um dos pontos mais problemáticos "Fazemos um trabalho de prevenção e eles não entendem, acham que só devem procurar atendimento médico quando estão doentes" aponta. Outro obstáculo é a demora no processo de agendamento de consultas, como diz a agente Ana Lúcia Silvia "O sistema promete uma coisa e não cumpre. Os usuários passam pelo nosso médico do PSF, ele dá o encaminhamento e quando o usuário vai marcar demora muito, às vezes não consegue. Em alguns casos se ele precisa ser atendido por um ortopedista ou dermatologista pode levar de 3 a 4 meses".
O analfabetismo também é um obstáculo, pois se o usuário não consegue entender o que está escrito terá dificuldades em seguir as recomendações médicas. Em alguns casos o agente orienta ao usuário buscar ajuda, entrando em programas de alfabetização como explica a agente Angela Ribeiro “Nós recomendamos procurar uma rede de alfabetização, procuramos ajuda de parentes que possam, e algumas vezes a gente leva o usuário ao local para fazer a matrícula”. Em alguns casos a criatividade supera as dificuldades impostas pelo analfabetismo como mostra a agente Ana Lúcia Silvia "Quando é um usuário que não sabe ler eu desenho. Faço um sol indicando que o remédio deve ser tomado durante o dia, e tento desenhar uma lua explicando que a medicação deve ser tomada de noite”.

Falhas no Sistema de Saúde
Apesar da expansão do Programa Saúde da Família - dados de 2007 do Ministério da Saúde informam que o programa possui 211 mil agentes atendendo cerca de 107 milhões de pessoas em praticamente todo o território nacional - as condições de trabalho oferecidas aos agentes comunitários ainda são desfavoráveis, a começar pelos baixos salários que no município de São Paulo giram em torno de um salário mínimo e meio. O desenvolvimento do processo é lento devido à falta de estrutura do sistema de saúde, que facilita o acesso por meio das ações dos agentes, mas ao mesmo tempo sofre com a falta de vagas em hospitais, agendamentos de consultas em prazos muito longos e concentração das ações em áreas limitadas.

São falhas que afetam o resultado final, desencorajam o trabalho dos agentes e provocam descrédito por parte do usuário do serviço. Evidências da baixa valorização dos agentes comunitários de saúde estão não somente na questão salarial, mas também quando se trata de plano de carreira. As queixas sobre os limites do trabalho são constantes. Chega-se em um ponto em que o agente nada pode fazer além do que está ao seu alcance.

Tão importantes como os usuários atendidos pelo Programa Saúde da Família, os agentes comunitários de saúde precisam de maior atenção do Estado e da sociedade civil. Não basta um treinamento, muitas vezes insuficiente, alguns instrumentos de trabalho básicos e uma remuneração baixa. O agente é uma peça fundamental para a eficácia da política pública de saúde proposta pelo Programa Saúde da Família e por isso precisa ser valorizado. Nas discussões sobre a melhoria do atendimento é vital levar em consideração as dificuldades registradas por eles, para que o Programa de atinja seus objetivos com eficácia.

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