segunda-feira, 8 de junho de 2009

Adotados pelo Brasil

Vir para terras brasileiras, fazer dinheiro nas lavouras de café e retornar ao Japão o mais rápido possível não era um sonho para muitas famílias japonesas no início do século XX: er e sim uma das saídas perante o cenário que assolava o Japão. Naquela época o país era uma nação marcada pelo crescente avanço populacional e pelos gastos provocados em virtude das guerras travadas contra a China e a Rússia. Diante de todas essas dificuldades, o governo japonês estimulava assiduamente a emigração. No Brasil, existe uma árvore que dá ouro: o cafeeiro. É só colher com as mãos “, diziam cartazes do período.Conheça a seguir histórias de quem viveu esse período da História!


Quem canta seus males espanta
Senhor Muneyoshi Hada, apesar de nascido no Japão já adotou o Brasil como pátria , nacionalizando-se como cidadão brasileiro.Não foi fácil superar as dificuldades, mais ao longo de sua vida sempre contou coma receita infalível na hora que a tristeza e a saudade de sua terra natal batiam.

Apaixonado por música tinha um gosto eclético que incluía desde o Tango passando pelas batidas do jazz, chegando até as músicas latinas. Essa paixão fez com que mesmo estando no Japão tivesse contato com a América Latina.Desde cedo sua relação com a música sempre foi muito intensa chegando a ponto de ser uma espécie de linha de vida, filosofia. Para muitos a idade é um empecilho quando se trata de voz, mas para senhor Hada não tem tempo ruim, ou melhor, voz ruim.Suas canções superaram as barreiras geográficas e já foram ouvidas tanto no Oriente como no Ocidente. Seus primeiros passos foram no Japão quando foi aluno de um dos principais cantores da época, a partir daí passou diversas vezes a fazer abertura em festivais de música, conhecendo assim muitas regiões japonesas. Para complementar seu talento, dedicou-se também a formação clássica de música com professor de violino.Aqueles que tem vontade de soltar a voz, mas acham que é tarde podem começar a rever seus conceitos. Sim, senhor Hada canta, toca e tem um conjunto musical que em 1ºde maio completou um ano de existência.Ah e não para por aí ele é sempre convidado para ser jurado e chefe de jurados.
Sua chegada ao Brasil ocorreu em 1958 ele tinha 32 anos, já casado e o que motivou sua vinda, além da propaganda que faziam no Japão a respeito do Brasil foi a busca pela nova experiência
O local de seu desembarque foi estabelecido no Japão mesmo: região de Cafelândia onde cumpriu contrato nas lavouras de café por um ano.Semelhante a muitos imigrantes japoneses veio tentar a sorte por aqui, mas uma coisa em sua história não foi unânime.Esse diferencial foi o fato de ter feito Faculdade de Arquitetura no Japão e ter atuado como Professor também. Então ele já tinha uma formação intelectual boa, diferente da grande maioria de famílias que eram predominantemente agricultoras. Sua intenção ao mudar-se para o Brasil era validar a bagagem intelectual que havia adquirido no Japão. Após cumprir o contrato em Cafelândia, mudou-se para São Paulo que já na época concentrava uma colônia japonesa expressiva em sua maioria no bairro na Liberdade que se consolidava como centro comercial.Seu primeiro emprego em terras paulistanas foi numa rádio que chama-se Cultura, depois Cometa e posteriormente Difusora.Atuava como locutor e anunciante de propaganda e seu programa era direcionado aos japoneses, entre outras coisas fazia também cotações de mercado.Passados alguns anos como a rádio andava bem no mercado e já contava com uma infra-estrutura capaz não apenas de colocar anúncio como também já saber distinguir quem eram os anunciantes bons da colônia, resolveram então passar a rádio para o papel impresso nascendo nesse momento jornal Shopping Information que atualmente já tem 42 anos e forte tradição entre a colônia no bairro da Liberdade.

Senhor Hadda conquistou ao longo de seus 83 anos de vida muitos títulos importantes como: Vice- Presidência da Bunkyou Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e De Assistência Social, Presidência Honorária da Associação Aichi do Brasil,, Vice presidência da Comisão de música da Associação Nipo – Brasileira de Cultura Musical e Diretoria Comercial e Presidente do jornal Shopping Information.

Segundo sua filha Mamy Hirose, Hadda sempre foi muito bem humorado e durante a Segunda Guerra Mundial era um entretenidor.Cantava e como prêmio recebia-se batata-doce que era distribuída entre os companheiros.Na época não tinha terra arada então a batata-doce dava muito.Pode-se perceber que a música sempre esteve presente na vida desse ilustre senhor de maneira constante.

Apesar de falar japonês perfeitamente e conservar a maioria dos hábitos alimentares japoneses, algumas tradições na família Hada já são ocidentais.’’Meus avôs tanto maternos como paternos são católicos, minha avó por exemplo, lia a bíblia e tocava órgão’’.Bem curioso né? Bem, mas quando o assunto é paladar Hirose afirma que a comida japonesa é fator prioritário em sua casa.’’ Ainda mais com toda essa importação de produtos, meu pai sempre dizia que a gente come melhor aqui os alimentos japoneses do que no próprio Japão’’, confessa . No bairro da Liberdade é fato que a união entre os imigrantes foi responsável por uma forte preservação de costumes, criando uma tradição maior do que no local de suas origens.No início, os primeiros imigrantes chegavam no Centro de Imigração perto da Mooca, mas comparando-se os preços de aluguéis, o bairro da Liberdade era muito mais atraente, havia pequenas pensões para estudantes que foram atraindo imigrantes que chegavam e não queriam partir de trem para outros lugares como Mogi e outros estados.Então em virtude desse fato houve uma dispersão para o bairro da Liberdade e aí como cultivavam os costumes japoneses, a região logo virou um centro Nipônico. Mais tarde vieram outros imigrantes orientais (chineses, coreanos).Segundo senhor Hada, o bairro era pacato e ficava dividido entre a parte de dormitórios e a parte de aglutinação de japoneses saudosistas de sua terra natal. Posteriormente vieram os restaurantes japoneses, mercadinhos, vendinhas e aí foi consolidando-se uma infra-estrutura maior, com um número maior de pessoas até tornar-se o que é hoje, repleto de comércio e pessoas das mais distintas regiões do Brasil e do mundo.Aos domingos atualmente quase não há mais espaço para os japoneses andarem, a região virou um centro de atração disputado por turistas brasileiros e estrangeiros. Tamanha contradição os japoneses serem literalmente pisoteados em sua maior colônia japonesa fora do Japão não?

Bem a Liberdade tem a cara do Japão. Mas também não há como negar que os japoneses que ali se estabeleceram estão ficando também com a cara do Brasil.Muitos deles já voltaram para o Japão, senhor Hada é um deles, mas não trocariam a vida aqui.’’O Brasil é privilegiado em termos geográficos, climáticos, aqui é mais gostoso’’, revela entusiasmado.Esse intercâmbio Brasil- Japão cresceu muito com o passar dos anos, mas no início as diferenças entre as duas nações eram claramente identificadas. Um fato que comprova essa distinção e não sai da mente de senhor Hada é uma das inúmeras lembranças que guarda na memória daquele período: ’’Quando cheguei aqui no Brasil, os brasileiros que estavam na fazenda perguntavam se lá no Japão havia carro, bonde andando na rua, trem’’. A falta de informação de ambos os lados era descarada.Em compensação hoje passados 100 anos desde a chegada das primeiras embarcações com imigrantes do Japão em solo brasileiro, a situação reverteu-se e os japoneses no Japão sentem-se orgulhosos em poder fazer parcerias com o governo brasileiro como no caso da despoluição do rio Tiête, e mais recentemente a concorrência para a construção do trem bala. ‘’Hoje podemos dizer que os dois lados se informaram, estruturaram-se e mantém esse vínculo, essa posição de trocas muito boa’’, conclui Mamy, filha de senhor Hada.

Uma história de superação

Não pense que a vida no Japão era tão dura quanto foi por aqui. Muitos imigrantes vieram não por livre e espontânea vontade e sim porque ainda eram muito jovens e tinham que acompanhar suas famílias. Esse foi o caso de senhora Kaoru Takamori, 63.Natural de Yamagoti (província vizinha de Hiroshima), ela juntamente com sua família veio tentar a sorte no Brasil no ano de 1956 e tinha apensas 13 anos de idade.Quando criança lembra que passou uma vida boa no Japão e não trabalhava (convenhamos que pesado) como aqui, apenas estudava. O ganha pão no Japão era uma padaria,tudo corria muito bem até que seu pai começou a jogar e perder muito dinheiro, logo vieram as dívidas e a solução encontrada por sua família foi a mesma que muitos japoneses tiveram, motivados pela intensa propaganda que era feita a respeito do Brasil, resolveram mudar-se para cá.

O desembarque foi na cidade de Uraí no estado do Paraná, com o objetivo de trabalhar nos cafezais cumprindo um período de contrato (cerca de 1 ou 2 anos).’’ Tínhamos que trabalhar na marra, eu nunca tinha pegado na enxada antes e, além disso, havia fiscais que passavam sempre vigiando os imigrantes, fugir era imperdoável além do que trabalhávamos muito e eu nunca recebia dinheiro, ocorriam trocas de alimentos como arroz e farinha somente’’, lembra Takamori.Sob essas condições de vida era muito difícil permanecer por muito tempo, então a família de Kaoru permaneceu por 10 meses nas lavouras de café. Na época havia também um contrato com o patrão que uma vez por mês tinha que vir para São Paulo, fazer carreto, então como o pai da senhora Kaoru tinha parentes em São Paulo (detalhe ele nunca os tinha visto, só sabia informações que obteve no Japão), partiram para a paulicéia no caminhão juntamente com toda mudança que incluía duas bicicletas e uma máquina de costura.

O primeiro lugar que moraram em São Paulo foi Itaquaquecetuba, onde seu pai foi trabalhar numa granja, mas ficou por apenas dois dias. Depois teve que procurar outro serviço e achou em Itaquera uma plantação de pêssego, já famosa entre a colônia naquela época.Mas mesmo assim ela tinha que trabalhar porque seu pai quando chegou em Itaquera, vendo todo esforço e quase nada de dinheiro percebeu que seu sonho estava muito longe de acontecer e decidiu parar de trabalhar. Depois de Itaquera rumaram para Mogi, mas até então a situação não melhorava.Uma conhecida da família tinha uma granja e um galinheiro, onde chegaram a morar também.’’Era embaixo da terra, não tinha torneira, parede, vivíamos como índio essa época foi muito dura, eu não tinha dinheiro nem para comer e já cheguei a passar cerca de 3 dias sem me alimentar’’, revela.


A trajetória de dificuldades não parou por aí.Passados alguns anos, ela veio trabalhar como doméstica no bairro da Aclimação, mais ainda não via a cor do dinheiro, seu trabalho era trocado por moradia e comida, detalhe ainda era mal tratada pelos patrões que julgavam-na inferior pelo fato de ter trabalhando nas lavouras. ‘’A única lembrança positiva que guardo dessa época era o fato de poder comer arroz branco depois de tanto tempo’’, confessa.Anos depois ela foi trabalhar no Rio de Janeiro e foi melhorando de vida. Em 1986 mudou-se para a região da Liberdade e foi trabalhar com senhor Hada no jornal onde foi loucutora também e lá está até hoje exercendo a função de Diretora Comercial. Depois de passar por tantas dificuldades no Brasil, conseguiu 30 anos depois de sua vinda, retornar ao Japão, ’’ Desse tempo todo, não existe mais aquele sentimento e há uma perda de costumes’’, explica.Quando a equipe de repórteres do jornal O Dia Sp perguntou a senhora Kaoru se valeu a pena ter ficado aqui no Brasil ela deu uma demorada pausa e apenas pronunciou as 3 letras’’ HUM..., a verdade é que eu gosto do Japão’’. Emendamos em seguida outra pergunta, mas a senhora é feliz aqui. Ela então disse: ’’ Hoje sou feliz sim. Pensando bem o Brasil é bom, o clima é bom e o povo brasileiro tem bastante amor, carinho, os japoneses são bem diferentes, são mais frios’’. Por exemplo, quando eu voltei para lá 30 anos depois estava pegando o trem na plataforma, aí deixei cair alguma coisa, as pessoas fingiram não ver nada’’.Resumindo sua vida foi muito sofrida, mas ela é um exemplo de que com garra e determinação muitas barreiras podem ser quebradas, inclusive aquelas impostas geograficamente.

Olha só que miscigenação!

Mamy Hirose, filha de senhor Hada, é uma nissei diferente. Ela é brasileira, tem a facha do Japão mais parla Italiano. A paixão pelo país da macarronada é tanta que sua filha mais nova chama-se Florença em homenagem a cidade italiana. Isso sim que é miscigenação né? Motivada pelos ensinamentos e influências que teve através de seus pais (sempre ligados a Arte, música e moda), optou pela carreira de Arquitetura. Embora seu pai quissesse que seguisse seus passos na área de Comunicação.Para não decepcioná-lo Mamy sempre o ajudou no jornal, fazendo matérias de Moda,Culinária,criando logomarcas para empresas. ‘’O jornal era predominantemente escrito em Japonês e voltado para a colônia, mas algumas vezes meu pai queria fazer páginas em Português (1 ou 2), aí eu fazia a de utilidades domésticas, eu ia até a Feira do automóvel,quando o senhor Ikesaki inaugurava as lojas eu ia fazer entrevista’’, explica a simpática nissei.Atualmente sua paixão pela Itália falou mais alto, e ela tem uma loja de artigos Italianos e a cada três meses vai para lá, trazendo na bagagem novidades do mundo da moda para abastecer sua butique Essere situada no bairro dos Jardins.

Motivada por suas origens familiares, Mamy resolveu conhecer a terra do sol nascente.’’Morei lá por 4 anos e me senti um peixe fora da água, queria falar, gesticular, mas não podia, lá era tudo muito quieto, não pode abraçar, beijar’’, confessa.Apesar de seus traços orientais e de falar perfeitamente a língua japonesa, os japoneses percebiam que ela não era natural de lá. Segundo ela essa nítida diferença se dá pelo fato dela ter nascido no Brasil.Sim, sob suas veias correm os sangues verdes –amarelo, do samba, do carnaval.Isso é claro sem abandonar suas origens orientais e seu coração Italiano! O produto final da história do centenário da imigração japonesa está em sua geração que nada mais é do que a miscigenação de várias culturas, várias influências. ‘’Sem dúvida o Brasil ajudou muito o Japão e vice-versa’’, analisa.E completa ainda’’Sou muito grata aos meus pais e tenho orgulho por não ter passado por todo sofrimento que eles passaram, graças ao trabalho estável deles aqui no Brasil, eu tive condições de ir para a Universidade, viajar, conhecer o mundo’’.

A partir da década de 80 iniciou-se um fenômeno reverso com os dekasseguis , ( a ida de nikkeys para trabalhar no Japão). Atualmente já são mais de 300 mil pessoas, sendo a terceira maior comunidade brasileira no exterior e que remete cerca de 2 bilhões de dólares para o Brasil. Essa contribuição brasileira em solo japonês é tão importante quanto a que aconteceu no Brasil quando os primeiros japoneses chegarem há 100 anos atrás. Firmando um intercâmbio tão proveitoso ao longo desses 100 anos, capaz de tornarem próximas barreiras que até então era praticamente inquebráveis e estreitar laços entre culturas que até então eram tão distintas .

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