segunda-feira, 8 de junho de 2009

Japão Amazônico

Partir, viajar quilômetros, chegar a um destino totalmente desconhecido com língua e hábitos totalmente diferentes do seu habitual não era nada fácil. Para aqueles que chegavam a São Paulo ou Paraná, as dificuldades já eram inúmeras. Imagine então quando o destino era uma região inóspita, quente, cheia de mato e de acesso totalmente difícil? Vencer e enriquecer parecia um sonho muito distante. Quem diria que dá rejeição poderia nascer a integração? Muitos voltaram para o Japão, mas tiveram também aqueles que aprenderam com as adversidades e por aqui foram ficando, senhor Seiji é um deles que hoje ama o Brasil e daqui não pretende sair tão já.

Seiji Hito, chegou ao Brasil em 27 de agosto de 1954 juntamente com sua família a bordo do navio Brasil Maru. Os primeiros passos em solo brasileiro foram dados em direção ao porto de Belém, mas não durou muito tempo. Logo em seguida rumaram para Manaus de barco. Chegar nas longínquas terras amazônicas não foi tarefa rápida, a viagem durou cerca de 10 dias. Na região havia 2 colônias japonesas, uma perto de Manaus e a outra localizada mais próxima do interior, denominada Maracapu onde Seiji e sua família estabeleceram-se pelo período de 2 anos, tempo do contrato de trabalho na agricultura.’’Nosso terreno era todo coberto por mato, nós abrimos e cortamos o mato para começar fazer plantação de arroz, milho, mandioca’’, explica. Quando chegaram já havia algumas famílias, cada uma com 20 alqueres de terra.

Atualmente existe máquina para cortar árvores, mas na época era feito com braço e machado.’’Levava mais de uma semana para cortar uma árvore’’, lembra Seiji. Primeiro cortavam-nas e depois queimavam.Chovia demais, todo dia, então tudo o que a gente plantava nascia, mas logo morria. Nós sofremos muito naquela época, quando começamos a tocar fogo nas árvores algumas pessoas atrasavam o trabalho e outra Japonês está acostumado a comer arroz e não havia para comprar, o que plantávamos não colhia, então na época a gente comia farinha de mandioca’’, relata.

As adversidades em Manaus eram tantas que muitas famílias resolveram migrar. Na maioria para São Paulo mais alguns como a família de senhor Seiji mudaram-se para a região de Tomé - Açu no Pará. ‘’ Na época meu pai tinha um amigo que trabalhava na Cooperativa de Tomé -Açu e nos convidou’’, explica. O pai dele vislumbrando a mudança, resolveu conversar com o governador do Amazonas e explicar a situação.’’Infelizmente não dá mais para viver na colônia’’, eram essas as palavras do pai de Seiji. Depois dessa conversa foi contratado um navio com total de 74 famílias com destino a Tomé-Açu. Hoje, a região é a 3º maior colônia Japonesa no Brasil. Os japoneses de lá são os maiores produtores brasileiros de pimenta-do reino e acerola, duas culturas que eles introduziram no Brasil. A cooperativa agrícola local, a Camta, é uma das mais lucrativas do país e a renda média da família de seus associados chega a 10 000 dólares anuais.

Durante o período da 2º Guerra Mundial Tomé-Açu era uma terra sem cultura que deslanchasse a economia. Não havia qualquer tipo de comunicação, nem estradas, o acesso à região era feito somente de barco e levava de 2 a 3 dias. A sorte dessa colônia japonesa começou mudar por causa de uma fatalidade. No ano de 1933 uma japonesa morreu a bordo de um navio de imigração, a viagem foi então interrompida com uma parada em Cingapura, lá o chefe da embarcação comprou 20 mudas de pimenta-do-reino. Em Tomé-Açu ele distribuiu as famílias mais apenas 2 plantas vingaram. Essas mudas, anos depois da 2º Guerra Mundial tornaram a cidade a maior produtora mundial de pimenta-do-reino sendo uma espécie de diamante negro da Amazônia. Para os governantes do Estado na época o melhor a ser feito era isolar os imigrantes em uma região de difícil acesso como era Tomé-Açu. Mas quem estava lá, queria mesmo produzir. ‘’Lá nossa vida mudou completamente porque tudo que plantávamos colhia e tinha arroz também’’, comemora Seiji. Em compensação em Manaus era o oposto ‘’Lá era muito sofrido porque trabalhávamos 3 meses antes de plantar, depois 3 meses na colheita, tínhamos que começar a trabalhar de manhã cedo porque de dia era muito quente, então nós começávamos 12 é íamos até as 2 da tarde, antes das 5 já parávamos porque não havia luz, era a base de querosene’’, relata. Além do que muitos morriam de malária.’’ A gente tomava remédio toda semana para não pegar, mas não adiantava, eu mesmo tomava sempre mais cheguei a pegar’’, explica.

O pai de senhor Seiji já era formado em Engenharia Agrônoma e a mãe Professora quando vieram para o Brasil. Sua mãe veio junto com os imigrantes com o objetivo de educar e o executou ensinando o idioma japonês para as crianças nas escolas de Tomé-Açu.’’ Naquela época era tudo muito difícil, não tinha muito para onde pedir socorro, mas o que não deixava a gente desistir era a união entre a colônia sempre muito grande’’. Perante esse cenário de dificuldades muitos partiram para o Japão de volta. Ao todo seus pais ficaram no Brasil por 22 anos.

No ano de 1960 a família de Seiji foi convidada por um dos presidentes do jornal Paulista a morar em São Paulo. Primeiramente estabeleceram-se em Suzano onde esse amigo que os convidou tinha um sítio.’’ No princípio eu não queria vir, pois gostava da vida no mato’’. Algum tempo depois se mudaram para São Paulo no bairro da Liberdade, compraram uma casa na rua Conselheiro Furtado e abriram uma pensão chamada Ito. Tempos depois a pensão foi fechada devido a perda de um negócio por não entender bem o português. Depois da perca, resolveu trabalhar com exportações, comprava pimenta-do-reino e passava de São Paulo para Belém-do –Pará. Nesse momento Seiji começou a trabalhar na Cooperativa Sul- Brasil que era a segunda maior na época , ficando atrás apenas da de Cotia. Lá exercia a função de fiscal, controlando a entrada e a saída de mercadorias, depois entrou no Departamento de compras onde devido à compra de material agrícola, fazia-se um levantamento de frutas que necessitavam de embalagens, então trabalhavam muito com a empresa de papel Klabin.’’ Eu tinha muita amizade com industriais e fabricantes’’, recorda. No tempo livre senhor Seiji assim como muitos nipônicos da região da Liberdade freqüentava o Cine Niterói que era uma maneira de se divertir e ao mesmo tempo matar as saudades da terra do sol nascente.’’ Eu ia sempre lá e assistia a 3 filmes no mesmo dia’’, recorda.

Atualmente senhor Seiji está aposentando e continua morando em São Paulo. Mais sua paixão pela colônia japonesa em Tomé-Açu no Belém do Pará é tanta que depois de ter vindo morar na capital Paulistana já voltou para lá e ficou 2 anos’’.Quando eu morava lá, conversava muito, como nós ficávamos meio ano fazendo sem serviço, meio ano trabalhando, fazia muita amizade com o pessoal do Ibama, da Funai , cheguei a morar com os índios por uns 3 meses, nos comunicávamos através de gestos’’, lembra.

Sem dúvida senhor Seiji não se arrependeu de morar no Brasil. Tanto é que todos de sua família voltaram para o Japão e ele foi o único que ficou. ‘’Eu estou vivendo bem, não falo bem a língua Portuguesa corretamente mas estou quebrando o galho’’, comemora. Em sua casa a mistura entre as 2 culturas é notável na alimentação sendo metade japonesa e metade brasileira. Sim, os hashis se misturam ao garfo e a faca e trazem uma mistura para lá de saborosa. As origens da terra do sol nascente não são esquecidas em seu lar. Todas manhãs os antepassados são lembrados em seu lar, através de uma oração acompanhada pela chama do inscenso. Além disso os filhos de senhor Seiji aprenderam a língua japonesa quando crianças.’’ Minha filha mandava cartas para meus pais quando eles
eram vivos em Japonês, eles ficavam muito contentes’’, revela. Em termos culturais aqui no Brasil segundo senhor Seiji, os hábitos tem sido mais mantidos do que no próprio Japão.’’Aqui o japonês é mais brasileiro do que lá’’, conclui. Muita coisa mudou por lá, a própria língua Japonesa está dando lugar a outros idiomas devido à globalização.’’Por exemplo, livros de escola de História antigamente era escritos somente em japonês, hoje tem escrito em Portugûes, Italiano, Inglês’’, comenta. Outro ponto que também mudou muito foi a alimentação, antes era feito tudo em casa, agora ninguém mais perde tempo cozinhando, tudo é comprado fora, porque tanto homens como mulheres tem uma jornada de trabalho muito grande.’’Até os idosos que antes eram mais caseiros hoje estão modernos’’, brinca.

Muitas vezes as dificuldades encontradas no Brasil, fizeram senhor Seiji pensar em desistir. Mas com o passar dos anos ele aprendeu a amar o Brasil, devido à receptividade acolhedora com que foi recebido, natural do povo brasileiro. ‘’Por exemplo, minha família perdeu 3 casas aqui em São Paulo, se fosse no Japão, não iria conseguir recuperar mais, levantar-se seria impossível. A contribuição entre a colônia japonesa é muito maior aqui do que lá. Mesmo morando no mesmo prédio, tinha dia no Japão que ninguém se cumprimentava, falta o calor que tem aqui’’, confessa. Pode-se perceber através da história de senhor Seiji que apesar das adversidades encontradas, o Brasil se tornou uma terra tão acolhedora que quando a equipe do jornal O Dia Sp perguntou se ele pretendia nacionalizar-se como cidadão brasileiro, com toda convicção disse “Quando eu fizer, vou fazer somente a brasileira e não a dupla identidade’’, precisa dizer mais alguma coisa?



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