segunda-feira, 8 de junho de 2009

Pioneiros da Galvão Bueno

De porão em porão, de desapropriação em desapropriação foi sob esse estigma que por muito tempo a família de Shizue Higaki Arai viveu. A vida não era nada fácil para quem sob esperanças de encontrar no Brasil uma vida melhor partia mar a fora e por aqui chegava.Além de enfrentar as dificuldades impostas pelas barreiras culturais (como hábitos e idiomas) teriam que trabalhar pesado nas lavouras de cafés sob um regime quase que escravocrata. Literalmente ganhavam o pão com o suor de seus rostos. Mas graças a peservença, paciência e esforço naturais da cultura oriental conseguiram sobreviver perante as condições adversas. Hoje, podemos dizer que deixaram suas marcas não apenas entre as futuras gerações, mas também entre os brasileiros que aprenderam com eles muito o longo desses 100 anos. Uma união que deu mais do que certo!

Shizue Arai é uma nissei de 72 anos que viu de perto a luta e trajetória de sua família. Proprietária de uma farmácia na Rua Galvão Bueno tem dividido seu tempo entre os cuidados da farmácia e as entrevistas aos jornais, revistas e televisão. O motivo: a simpática nissei pertence a família Higaki, pioneiros a instalar-se na rua Galvão Bueno.

A história de sua família começou em 1929 quando seus pais vieram da cidade de Shikoku no Japão para o Brasil no navio Kamarakumaru.Assim como muitos nipônicos desembarcaram na região de Mogiana para trabalhar nos cafezais cumprindo contrato de 2 anos.Quando vieram do Japão seus pais ainda não eram casados, foi em São Paulo que passaram a viver juntos.’’Meus pais vieram da mesma província japonesa e no mesmo navio, aí naquela época era muito comum ter casamento arranjado, então um ano depois da vinda deles, casaram-se já em São Paulo’’, explica Shizue.

Depois de deixarem seu suor nas lavouras de café vieram tentar a sorte em São Paulo e o local ao qual se dirigiram foi a rua Conde do Pinhal na região central, onde após quatro anos de casados compraram o hotel Asahi , um prédio de 3 andares situado na rua Conde do Pinhal no número 70. ‘’Naquela época os porões costumavam ser habitados e era nele que as famílias geralmente moravam., conosco foi assim também’’, explica a nissei.Os outros andares do hotel eram freqüentados por uma freguesia já certa.Na época a região já estava sendo habitada pelos imigrantes de pronunciados olhos-puxados. Em parte porque na rua Conde de Sarzedas ficava localizada a embaixada do Japão e porque os imigrantes que vieram trabalhar no interior passavam por São Paulo para abastecer e vender suas produções.’’Meu pai fazia muito essas viagens de vai e volta para Santos e na bagagem trazia muitas pessoas para o hospital que ficava aqui mesmo na Galvão Bueno onde fica hoje o Hospital Bandeirantes’’, recorda.

Passados alguns anos da vinda da família de Shizue ao Brasil, tiveram que sair da rua Conde de Pinhal em virtude da 2º Guerra Mundial e ir para o bairro de Vila Mariana levando apenas o essencial.Depois da guerra retornaram a rua Galvão Bueno, nesse momento o pessoal do interior passou a vir mais para São Paulo.”Nossa casa que era uma pensão ficou pequena para abrigar todas essas pessoas’’ recorda..Aí andando pela rua a família achou uma casa vazia no número 83 e por lá ficaram por cerca de 5 anos.Infelizmente houve uma desapropriação do Estado e tiveram que mudar novamente, dessa vez para o número 129.O senhor Tanaka, pessoa de extrema importância na história do bairro comprou o terreno vago em frente a pensão da família Hijaki e construiu o famoso Cine-Niterói..Aproveitando o embalo abriram um bar em 1953 e como os negócios andavam muito bem em seguida abriram um restaurante. Com o tempo veio outra desapropriação, dessa vez da Prefeitura.que acabou com o Cine-Niterói pra a construção da Radial-Leste.

No ano de 1963 após formar-se na faculdade de Farmácia a nissei resolveu abrir a farmácia Galvão Bueno que ficou no mesmo lugar até hoje.’’Minha vida foi construída toda aqui nessa região’, relembra emocionada.Segundo ela muita coisa mudou de lá para cá, antigamente também havia trombadinha, de sexta para sábado sempre havia gente matada.’’Mas um das lembranças mais bonitas que guardo daquela época é essa rua que chamava-se Alameda Galvão Bueno e era cheia de arvores ‘, ’confessa.O comércio era predominantemente japonês , hoje é dividido com os chinês e coreanos que estabeleceram-se na região.

A farmácia de dona Shizue sobreviveu às transformações do bairro e permanece atendendo sempre com qualidade seus clientes (muitos deles bastante antigos).E hoje conta também com a inovação dos futuros descendentes que aprenderam o oficio.Ao todo são 1 filho, 2 filhas e 7 netos. Detalhe: todos aprenderam a falar japonês e fizeram estágio no Japão (A filha mais velha é Médica e a 2 º é Farmacêutica).

Em meio ao ambiente da farmácia as memórias do pai de Shizue ainda permanecem muito vivas, principalmente ao observarmos nas paredes alguns quadros de sua autoria. Hajime Higaki além de ser um dos pioneiros da rua Galvão Bueno foi um renomado artista que recebeu alguns importantes títulos e participou de importantes exposições tanto no Brasil como no exterior destacando-se entre elas: Salão Paulista de Belas Artes; 1º Bienal Internacional de São Paulo, Museu de Arte Moderna, Grupo Guanabara; Grupo Seibi; do 8º ao 28º Salão Bunkyo; A arte na história da imigração japonesa-Masp São Paulo; Japanese Roots entre outras. Sem dúvida, todo o esforço e dificuldades que encontrou jamais serão esquecidos principalmente por seus descendentes que seguiram seu exemplo de garra e determinação.

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