No momento em que as cinzentas folhas do jornal caem sob as mãos do leitor, tudo o que este sujeito não quer é deparar-se com os índices alarmantes de criminalidade das páginas policiais ou ler sobre mais um escândalo político ou econômico. Fugindo da monotonia e da truculenta realidade apontada pelas páginas de hard news, o caro leitor recorre às laudas do caderno cultural. Devido ao seu conteúdo mais leve quando comparado ao restante do jornal, muitos o denominam de ‘’segundo caderno’’, no entanto pesquisas de leitura apontam esses cadernos como os mais lidos justamente por sua cota de positividade, em geral estão indicando um bom livro, uma boa exposição, opções de shows, restaurantes, filmes, entre outros.
A abordagem dessas temáticas mudou com o passar dos anos no Brasil.Natural que acompanhem as transformações histórico-sociais da sociedade, no entanto é de tamanho espanto perceber que a cobertura jornalística atual distancia-se tanto da maneira como era produzida quando a atividade iniciou-se no século XVIII. Por onde andam as opiniões e posicionamentos sociais reflexivos a cerca de práticas sociais? Ah e o que dizer a respeito da democratização do conhecimento nessa editoria?
Para melhor exemplificar a realidade aqui apontada tomemos como exemplo a cobertura realizada pela mídia, ou melhor pela grande imprensa a respeito da 29 ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Não é de estranhar-se que as páginas dos veículos desse segmento midiático estejam muito mais preocupadas em divulgar as últimas novidades do cinema norte-americano e da música pop, bem como abordar o universo das celebridades. O espaço que deveria ser destinado à abordagem da pluralidade cultural brasileiras de maneira epistemológica, bem como possíveis reportagens sobre irregularidades nos órgãos públicos referentes à cultura tem sido substituído por uma cobertura factual dos eventos de maneira doxa, sem possíveis análises e interdisciplinaridade, elementos essenciais ao bom e saudoso Jornalismo Cultural.
A cobertura realizada pelos cadernos culturais da Folha de São Paulo e o O Estado de São Paulo, dão ao leitor uma visão bem pouco aprofundada do evento que irá ocorrer entre 21 de setembro e 12 de dezembro de 2010 e irá contar com especialistas vindos do Japão, África do Sul, Angola, Espanha e Venezuela. A temática esse ano será Arte e Política. No cartaz, será impressa a frase do poeta alagoano Jorge de Lima ‘’Há Sempre um Copo de Mar para o Homem Navegar" título da 29ª Bienal de Arte. Em contrapartida a edição anterior que ficou conhecida como’’Bienal do Vazio’’(registrando a menor presença de público dos últimos 10 anos), este ano a meta é atrair 1 milhão de visitantes incluindo ações educativas para atingir 400 mil estudantes, há também previsão de exposições paralelas junto as redes de museus de São Paulo e a idéia de levar em 2011 partes da mostra para outras cidades brasileiras, tornando a bienal um evento de alcance nacional.Outra novidade desse ano será a disposição de terreiros no pavilhão do Ibirapuera , segundo o curador da mostra Agnaldo Faria, estes representam a àgora brasileira.
Na pauta dos veículos citados aparecem essas informações referentes a temática , mas um evento dessa magnitude, que ao longo dos anos firmou-se como agente na produção e divulgação da arte do país com a arte internacional, além de ser o ponto de encontro das artes visuais cênicas e da arquitetura merece uma cobertura muito mais contextualizada, reflexiva e abrangente. A começar, por exemplo, fazendo uma explanação histórica do evento desde 1951 quando o empresário Ciccillo Matarazzo realizou a primeira bienal na esplanada do Trianon, área hoje ocupada pelo MASP. Com a construção do Parque Ibirapuera a bienal passou a ocupar o pavilhão das nações que recebeu o nome de pavilhão Ciccillo Matarazzo.Outro fato importante a ser destacado é que desde o inicio o evento obteve êxito , basta comparar os países participantes de nossa primeira edição:23 contra 25 da 25 ª edição da bienal de Veneza. Outra questão que poderia ser abordada de maneira mais contundente pela mídia, diz respeito a seu caráter educativo na medida em que promove contato da arte com diversificados públicos, promovendo a inclusão. Cabe então, mais atenção aos responsáveis pela Fundação Bienal por parte da imprensa, da sociedade civil, artistas e instituições museulógicas com a finalidade de preservação da produção artística brasileira.
O que não pode ocorrer, é a bienal cair no ostracismo dentro do Brasil e só ser lembrada a cada 2 anos, cabe a mídia intermediar o debate político-cultural a cerca do assunto, trazendo á tona assuntos que façam parte do debate público como esclarecer constantemente ao contribuinte quais, aonde e de que maneira seu dinheiro está sendo aplicado, se há crises e dívidas na Fundação Bienal porque tem ocorrido, quais são as possíveis soluções para driblar o problema, é dever também das páginas dos cadernos culturais informar sobre os acontecimentos da gestão atual. Setores públicos e privados devem caminhar juntos nesse sentido e ao invés de cumprir a agenda de espetáculos e pautar suas matérias pelos ditames das assessorias de imprensa e anunciantes esses cadernos deveriam preocupar-se com a cultura, pois afinal como afirmou Ciccillo Matarazzo ‘’Um país sem cultura não é um país’’.
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